Alentejano de gema de Ferreira do Alentejo, de careca branquinha por estar tapada com o seu boné, de olhos verdes e com um sorriso maroto, assim era o Avô Adriano. Com o seu pequeno canivete raspava com afinco o seco queijo de cabra e respondia com resmunguisse "O qué que tem a ver com isso?" quando não lhe agradava a pergunta ao Sôr Adriano.
É assim que recordo do nosso velhote.
Andava com rapidez e com o tronco ligueiramente inclinado para a frente, depois de ter partido um pé no dia de Natal. Estava tão bonito nesse dia! Com o seu fato de cerimónia, pois fazia questão de estar à altura de um dia tão especial. Com uma frieza, que só ele era capaz, endireitou e colocou o seu pé torcido no lugar certo. Lá fomos nós para o hostipal. Mas apesar da sua idade, recuperou, mas de vez em quando lá ia com a cabeça ao chão.
Aquela cabeça tinha visto mais vezes o chão de perto que muitos pés!!!! :-)
Depois de uns anos de dedicação à pinga, com uma determinação invulgar, deixou de vez o vicio. De louvar que depois disso foi trabalhar para a taberna do bairro, sem chegar com o copo de vinho à boca. Foram algumas as vezes que o via na rua a cambalear com a cabeça "rachada", lá ia ele direitinho para a cama a curtir a buba. Nunca foi violento, ao contrário de muitos outros casos.
Depois de sair de perto dele, passei a fazer as visitas durante as férias de verão. Era com muito prazer que depois de jantar ia ao café e presenteava-nos com um corneto.
Apenas ficava danado connosco quando a Avó se zangava porque ficavamos até tarde na borga. De resto não fazia mal a uma mosca.
O seu outro vicio, e esse nunca o largou eram... os jornais!!! Um de manha, outro à tarde, fora os semanais e mensais! Enfim gostava de ler e se manter informado.
Subia as ingremes ladeiras de Alcácer quase sempre carregado, ora com fruta, ora com legumes. E várias vezes ao dia. Sempre a pé, nunca chegou a tirar a carta...